A Central Galeria apresenta a exposição “Reza”, individual da artista carioca Eliane Duarte, com texto crítico de Catarina Duncan.

Eliane Duarte nasceu em 1943 no Rio de Janeiro e teve uma produção artística breve, mas intensa, até seu falecimento prematuro em 2006. Suas obras expandem os limites da tela  como suporte e ganham corpo como objetos-amuletos-rezos. Feitos com tecidos, algodão,  pigmentos naturais, cera, sementes, corda, penas, moedas e muitos outros elementos, habitam  uma mística, ganhando corpo como entidades e forças únicas. Conforme relato de Duarte:

Meu  trabalho é quase uma reza, no sentido de fazê-los de forma lenta e por uni-los uns aos outros,  costurando-os como se fossem patuás. Queria uma coisa que desse sorte às pessoas e tudo  que eu coloco tem a função de amuletos.

Ao conhecer sua prática, acessamos fundamentos da natureza, formas orgânicas, flores,  cachos e vestes que se materializam em suas obras através de um processo de costura  visceral. A costura é uma prática ancestral mas frequentemente associada ao universo  feminino domesticado. Entretanto, a voracidade com que Eliane trabalhou com essas técnicas  aproximam o fazer artesanal ao cirúrgico. Suas metodologias explicitam também a urgência de  se comunicar de outra forma, tridimensional mas não escultórica, com costura em pele e não  só em tecido, sempre driblando das conformidades práticas do mercado de arte.

Eliane Duarte na Central Galeria (2024)
Eliane Duarte na Central Galeria (2024)

Sua obra é um legado à prática artística de mulheres no Brasil, que seguem sem o devido  reconhecimento na memória coletiva de sua geração, evidenciando os processos patriarcais  das decisões históricas sobre quem é reconhecido. Acessamos um conjunto de trabalhos que  nunca foram apresentados juntos e assim resgatamos e honramos a memória não só dessa  grande artista mas de todas as mulheres, artistas que seguem sem o devido reconhecimento.

Eliane Duarte estudou na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio de Janeiro, de 1987 a  1989. Começou a se destacar no cenário artístico ao ganhar o 1º Prêmio do Salão Nacional de  Artes Plásticas da Funarte em 1994, com a obra “Veste”. Desde então, o sentido de maceração  associado à ideia de gerar pele tornou-se um tema proeminente em sua poética.

Além de inúmeras individuais nas galerias Anna Maria Niemeyer, no Rio, e Camargo Vilaça,  em São Paulo, expôs em: MAC Niterói; MAM Rio de Janeiro; Paço Imperial; Museu de Belas  Artes do Rio de Janeiro; Itaú Cultural de São Paulo. No exterior participou de coletivas em:  Museu Solomon R. Guggenheim, Nova Iorque; Centro Cultural de Arte Contemporâneo, Cidade do México; Museo Alejandro Ottero, Caracas; Centro Cultural Culturgest, Lisboa; Museo del  Barrio, Nova Iorque; Museo de Arte Latino-Americana, Buenos Aires; Coconut Grove Center,  Miami; BildMuseet, Umea, Suécia; Fondation Cartier pour l’art contemporain, Paris. Suas obras  integram as mais importantes coleções brasileiras, como: João Sattamini/MAC Niterói; Gilberto Chateaubriand/MAMRio de Janeiro; Coleção do MAC São Paulo; e internacionais como: Coleção  Fondation Cartier pour l’art contemporain, Paris, Bernard Soguel, Basel; Cisneros e Museo  Alejandro Otero, Caracas.

Serviço: exposição Eliane Duarte: Reza, na Central Galeria, Rua Bento Freitas, 306, Vila Buarque, São Paulo.

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